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domingo, 1 de julho de 2018

Reciclados: desafios e oportunidades

Reciclados: desafios e oportuniadades

De jcnet.com.br

Apenas uma em cada quatro pessoas separa lixo no Brasil. Os dados de uma pesquisa Ibope feita por encomenda pela cervejaria Ambev, na última semana de maio passado, confirmam que ou sabemos muito pouco ou praticamos quase nada de separação correta em termos de reciclagem no Brasil. Todos os Estados foram pesquisados.
Mas e a política pública de coleta, separação e destino final dos materiais reciclados? Na região de Bauru, assim como em praticamente todo o Interior do Estado de São Paulo, o volume do lixo reciclável alcançado pelas ações do poder público é muito pequeno diante do que se produz nas casas.
No último dia 23, representantes de 16 cidades que integram as 26 representações no segmento, no Centro Paulista, se reuniram em auditório da Universidade do Sagrado Coração (USC) para discutir este assunto. Cooperativas e associações participaram do 52º Encontro de Catadores de Materiais Recicláveis do Comitê Oeste Paulista, o que inclui a região de Bauru, na porção central.
Na pauta da agenda, a contextualização do cenário das cooperativas de Bauru, o momento da Rede e o cenário do setor no Estado, os desafios da reciclagem, a organização e participação das cooperativas no âmbito ambiental do município e o lixo como emprego e renda.
Os organizadores ainda discutiram a formação de editais e os prós e contras da realização de Parcerias-Público-Privadas (PPP) por prefeituras no setor.


Nélson Gonçalves
Reciclados: desafios e oportunidades
Encontro de catadores de materiais recicláveis foi realizado em auditório da USC
Entre os obstáculos dos grupos no segmento estão a incipiente capacidade de organização das cooperativas, em sua maioria, pouca formação em gestão capaz de ancorar projetos que garantam assumir demandas em volume, área de abrangência e produtividade e a competição injusta com grandes empresas que atuam no setor.
Entre as temáticas estratégias, a vontade de cooperativas pela formação de associações capazes de assumir os serviços municipais por completo na reciclagem, da coleta à venda da mercadoria triada, e dúvidas em relação ao formato e a participação do setor em modelos de concessões e PPPs previstos para inúmeras prefeituras, como Bauru.
Entre estudiosos do tema, há divergências sobre as saídas para garantir ampliação da coleta seletiva de fato, educação ambiental e destino final do lixo adequado. Para uma corrente, a alternativa de repassar a coleta e barracões para as cooperativas gera despesas de custeio e manutenção que podem não ser suportados no tempo, como a renovação da frota, equipamentos, barracões e encargos com mão de obra. Para outra vertente, o poder público tem oportunidade de fazer amplo programa de inclusão social, trabalho e renda, com capacitação de cooperados, e o pagamento por serviços, na ponta, mais baratos do que as estruturas públicas atuais, ou vinculadas a contratos com o setor privado.   


Referência de 280 toneladas/mês
A coleta seletiva domiciliar urbana em Ourinhos (SP) dá “banho” de exemplo reciclável em cidades bem maiores, como Bauru. Implantada de fato em praticamente todas as casas naquela cidade, o volume coletado, a estrutura, a gestão e o modelo de separação dos materiais explica, por si só, a diferença entre “área de cobertura física” e área de coleta efetiva.
Divulgação
Reciclados: desafios e oportunidades
A aquisição de equipamentos e a formação de diretoria, com conselho fiscal, foi fundamental para profissionalizar a atuação da cooperativa de Ourinhos, que coleta 280 toneladas/mês
Ourinhos, com 112 mil habitantes, coleta via cooperativa de catadores 280 toneladas mês de materiais. Bauru, com seus 372 mil cidadãos, recolhe 210 mil toneladas mês para três cooperativas. Para a coordenadora da Coopeco, Gisele Moretti, uma das organizadas em Bauru, os números mostram como “é caro o serviço pago pelo bauruenses através da Emdurb, pois mostram a ineficiência e o erro em um contrato que paga por área de cobertura e tarefa, o que não garante o recolhimento em muitas casas”.
A coleta seletiva de lixo domiciliar urbano foi mencionada como modelo, em todo o País, no encontro do segmento no sábado do dia 23 de junho, último, no auditório da USC em Bauru.
Para o superintendente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Ricardo Gomes, a capacitação e preparação da gestão da cooperativa fez a diferença. “Em Ourinhos houve preparação planejada da capacidade da cooperativa de assumir a coleta seletiva. E o poder público foi decisivo, porque escolheu o modelo que incentiva os catadores. Há incentivo, há pagamento pelo serviço prestado diretamente à cooperativa, contrato com obrigação, habilitação da cooperativa e, com isso, abriram-se as portas para o acesso a recebimento de equipamentos e estrutura”, conta.
Em Ourinhos, o programa é subsidiado, com participação da administração (SAE) junto à Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (Recicla Ourinhos). A SAE disponibilizou caminhões, barracões, refeitório e sanitários adaptados. A Recicla Ourinhos executa o serviço de separação de material reciclável junto ao lixo domiciliar que chega diariamente ao aterro controlado e utiliza a antiga usina de reciclagem de lixo como ponto de separação, prensagem, armazenagem e comercialização do material reciclável recolhido. Em 2015, a Prefeitura de Ourinhos, a SAE e a Recicla Ourinhos lançaram a campanha "Coleta Seletiva Solidária - Reduza, Reutilize, Recicle".
Nacional
Divulgação
Em Ourinhos, dois caminhões com motorista são cedidos pela prefeitura e outros cinco são da cooperativa
Os cooperados da usina de reciclagem de Ourinhos foram premiados no “Pró-catador”, do governo federal, concorrendo com outros 64 municípios. Matilde Ramos da Silva, uma das coordenadoras do grupo, lembra que o trabalho exigiu etapas. “Foi uma luta de anos seguidos. Ficamos vários anos trabalhando dentro do lixão. Nos organizamos e mostramos capacidade e que aqui estão trabalhadores”, disse.
Um dos “segredos” do êxito no programa é que os catadores gerenciam toda a cadeia. O grupo se divide e passa pelos bairros da cidade fazendo o recolhimento do material casa a casa. “A gente trabalhou duro para se aproximar do morador. Porque se não cercamos tudo o que é melhor vai para outras pessoas. E os moradores nos receberam bem. Para a Prefeitura também é bom, porque quanto mais eficiente for nossa coleta mais resultado dá o serviço”, conta Cláudia da Silva, há 17 anos atuando na cidade.
Depois de recolhido pelos próprios cooperados, o material segue de caminhão para o centro de triagem. Na usina de reciclagem todo o lixo é processado. Primeiro, os materiais passaram pela esteira. Depois, há a separação por tipo: plástico, vidro, papel e papelão.
Após esse processo, os cooperados atuam na etapa de “valor agregado”. “O papelão solto tem valor de mercado bem mais baixo do que o prensado. Com a prensa, nós conseguimos faturar muito mais”, comenta. São mais de 250 quilos de material compactado por dia, em cinco máquinas.

Estrutura e contrato de serviço
Nelson Gonçalves
Ricardo Gomes, superintendente da Fundação Nacional
de Saúde, informa que há recursos, mas faltam projetos
A “Recicla Ourinhos” se organizou e no espaço cedido pela Prefeitura, onde há balança para pesar os caminhões com material. Os cooperados construíram refeitório próprio.
Cláudia da Silva, lembra que a instalação aconteceu em uma antiga usina de lixo. “Tem dois barracões instalados pela Prefeitura e concessão do espaço por 30 anos. A cooperativa coleta 100% da cidade. Temos dois caminhões cedidos pela Prefeitura, com
motorista, e cinco caminhões da cooperativa, com motorista nosso. Coletamos 280 ton/mês. São 40% de papelão, 30% de plástico, alumínio uns 17%, 3% de vidro. O rejeito da reciclagem estocamos”, conta. Segundo Silva, 130 pessoas estão envolvidas.
“Dividimos a renda de tudo por produção e horas trabalhadas. A renda média é de R$ 1.350,00. Recolhemos INSS, seguro de vida e a gestão é com diretoria e conselho fiscal”, elenca a cooperada. Ricardo Gomes, da Funasa, conta que o credenciamento da Recicla Ourinhos permitiu acesso a equipamentos, com dinheiro federal.
“Os investimentos na estruturação da cooperativa acumulam em torno de R$ 600 mil nos últimos anos, com esteira, caminhão, prensa. Também tem empilhadeira que hoje é R$ 60 mil. O dinheiro é repassado direto pela União. O município entra com a estrutura local, barracão. Há recursos para isso, mas precisa se organizar, habilitar e ter projeto. Falta de projeto hoje é o principal problema”, afirma Gomes.


Mulheres são maioria
Nelson Gonçalves
Cláudia da Silva, de Ourinhos, conversa com Gisele Moretti, de Bauru, no encontro de cooperativas de catadores de recicláveis
As mulheres são protagonistas entre catadores de materiais recicláveis no Brasil. É o que aponta o levantamento repassado pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Mais de 70% desse universo é formado por mulheres. 
O dado se confirma na amostragem levantada por um dos maiores programas voltados ao setor, o Cataforte III – Negócios Sustentáveis em Redes Solidárias, do Comitê Interministerial para Inclusão Social e Econômica dos Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis (CIISC). Conforme a coordenadoria do programa, entre 33 redes distribuídas em 14 estados assistidos pela ação, o contingente é de 13 mil catadores, sendo mais de 2/3 mulheres. E a presença feminina no trabalho é em todas as etapas: na coleta nas ruas, triagem, carga e descarga em caminhões, etc.  
No trabalho de análise do perfil do segmento, está que boa parte das catadoras é formada por pessoas de baixa escolaridade, muitas com filhos para alimentar e sem opções de trabalhos formais. Assim, a catação de materiais recicláveis, seja de forma autônoma, nos lixões, ou nos empreendimentos econômicos solidários, aparece como uma opção mais viável para as mulheres. 
Os homens em situação similar, contam com opção na construção civil, segmento que não exige grau de formação e oferece remuneração mais atraente.


Por o lixo na mesa é essencial
Malavolta Jr.
Aloisio Costa Sampaio participa de reunião do Comdema e defende antecipação de discussão com todos os participantes do segmento 
A avaliação sobre o encontro de catadores de materiais recicláveis ligados a 26 cidades da região, realizado em Bauru no último dia 23 de junho, é de que é preciso aprofundar a discussão sobre o modelo. Para o professor do curso de Ciências Biológicas da Unesp Bauru, o agrônomo e membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema), Aloisio Costa Sampaio, além disso, o poder público tem de por na mesa, desde já, a discussão sobre as dificuldades, as alternativas e o modelo de gestão e prestação de serviços no setor.
"Em Bauru, por exemplo, o prefeito esteve no encontro e falou em construir barracões e decidiu que as cooperativas vão ficar atuando nos recicláveis. Mas é preciso se antecipar, planejar. Se o estudo da Caixa vai ser apresentado daqui um ano e meio, o Executivo tem de colocar todos os atores para discutir o modelo. Não dá pra esperar isso lá na frente", observa.
Conforme o agrônomo, o Comdena vai colocar o modelo em discussão, solicitando interação. "Tem de chamar as cooperativas, a Emdurb, a Semma, a empresa que atua no aterro de Piratininga, especialistas em matéria ambiental e pesquisadores das universidades. Tudo deve estar na mesa desde agora, para construir o modelo", defende Aloisio.
Divulgação
Reciclados: desafios e oportunidades
Na maioria das cooperativas, como em Lençóis, o serviço exige profissionalização e ajustes em gestão
De outro lado, o docente pontua que as cooperativas precisam se organizar. "Aqui em Bauru, como na maioria das outras cidades, a associação precisa se organizar. Tem de formalizar, buscar habilitação, gestão, para dar musculatura e força às cooperativas. A cessão de Ecopontos para as cooperativas administrarem sob a supervisão do poder público é outra medida necessária, com ampliação de horário e comprometimento com educação ambiental no processo", observa.
Outra necessidade é rever, nesse período, a função da Emdurb. "Para Bauru a empresa que presta serviços com custo de sua estrutura encarece a despesa e o bauruense é quem paga essa conta. Se o reciclável vai ficar com as cooperativas e o destino final do rejeito vai para o setor privado, há que se apontar no processo mudanças na Emdurb. Atuar com 1 motorista e quatro coletores é evidente que encarece muito, o que já acontece no lixo doméstico. Se modelo não rediscutir a Emdurb não muda nada", adverte.
Para Gisele Moretti, da Coopeco em Bauru, o modelo com PPP e as cooperativas não fecha. "Aumentar a participação em educação ambiental nas casas significa reduzir o peso final do rejeito que será oferecido para a iniciativa privada. Pra mim não fecha a conta. O prefeito diz que as cooperativas vão continuar com o reciclável. Mas veja em Ourinhos, que é referência. Onde a cooperativa assume, ela aumenta muito a coleta reciclável, o que é bom para a cidade. Mas isso reduz no tempo o volume para quem atuar no rejeito. E perder peso significa perder faturamento. Como isso será compensado em uma concessão ou PPP?", questiona. 


Aprendizado
Nelson Gonçalves
Marilza Rodrigues atua na cooperativa de Lençóis Paulista
Marilza Rodrigues de Oliveira atua na cooperativa de catadores de recicláveis em Lençóis Paulista desde 2003. Lá, o serviço não está em fase de organização. 
"Temos um barracão que fica em lote da Prefeitura onde era uma usina de lixo. O lixo todo vai para a cooperativa e trabalhamos com 41 cooperados. Separamos em torno de 32 toneladas. A vantagem hoje é que o aterro está ao lado. Então facilita o descarte do que sobra. Mas o aterro será finalizado neste mês de julho", comenta. 
Para Marilza é preciso ajustar a relação com o poder público. "Precisa fazer contrato. Temos uma esteira elevada para 22 pessoas trabalharem nela, uma empilhadeira e dois caminhões. Uma empresa cedeu um caminhão punida por TAC da Promotoria. A cooperativa tem dois motoristas e o terceiro é da Prefeitura. A coleta é porta a porta. E tem de ser, porque senão o próprio pessoal atravessa e tira o que gera mais receita. A divisão do trabalho gera uns R$ 900,00 de renda mensal para cada um", informa.


Brasileiro sabe pouco
A maioria dos brasileiros sabe pouco ou nada sobre coleta seletiva e o que acontece com o lixo doméstico – que gera mais de 1 kg por habitante por dia. E, apesar de dizer que a preocupação com o meio ambiente é um dos maiores temas da atualidade, grande parte das pessoas não separa lixo em suas casas.
Na verdade, apenas uma em cada quatro pessoas separa. E apenas 35% disseram que é fácil encontrar informações sobre como se deve fazer a coleta seletiva em sua cidade. Os dados resultam de uma pesquisa Ibope feita por encomenda da cervejaria Ambev na última semana de maio. Foram entrevistadas por telefone 1.816 pessoas em todos os Estados e no Distrito Federal. A margem de erro é de 3 pontos percentuais e o nível de confiabilidade é de 95%.
Malavolta Jr.
Reunião do Comdema, na última sexta-feira pela manhã: é preciso colocar tema em discussão 
O objetivo do levantamento foi entender a relação do brasileiro com o lixo, segundo Filipe Barolo, gerente de sustentabilidade da Ambev. O dado que mais surpreendeu positivamente, segundo Barolo, foi o de que 88% dos entrevistados dizem se preocupar com o meio ambiente e 97% dizem achar que a reciclagem é importante.
“Mas também descobrimos que 66% sabem pouco ou nada sobre coleta seletiva e que 39% da população não separa sequer o lixo orgânico das demais partes”. Recicláveis 68% das pessoas entrevistadas dizem prestar atenção na hora da compra e escolher embalagens recicláveis.
Porém, quando se pergunta sobre a reciclabilidade dos materiais, as respostas apontam desinformação. Setenta e sete por cento sabem que os plásticos são recicláveis, mas apenas 40% sabem que garrafas PET são recicláveis - e elas são plásticas.
De acordo com o levantamento, 64% sabem que o vidro é reciclável e 50% sabem que o papel também é. E apenas 5% das pessoas sabem que embalagens longa vida são recicláveis. Outra surpresa aparece nas respostas sobre o alumínio.
O Brasil é campeão na reciclagem de latinhas, mas só 47% sabem que esse material é reciclável. “Vimos que há muito espaço para melhorar a comunicação”, diz o executivo da Ambev. A empresa passou a usar vasilhames retornáveis de vidro nas cervejas Brahma e Skol há 4 anos.
E a pesquisa detectou que 72% das pessoas sabem pouco ou nada sobre as retornáveis. “Queremos aumentar a quantidade de envases retornáveis e reciclados. Uma de nossas metas socioambientais é que, até 2025, 100% dos produtos estejam em embalagens retornáveis ou feitas majoritariamente de material reciclado”, afirma Barolo.
Atualmente, cerca de 33% da produção total de PET da Ambev é feita a partir de material reciclado, segundo a empresa.

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